segunda-feira, agosto 30, 2004

O MAL DA FELICIDADE

Por Paula Mageste - Revista Época

Escritor francês PASCAL BRUCKNER diz que ser feliz virou uma obrigação, um
símbolo de status e uma fonte permanente de angústia.

Entrevista com o romancista e ensaísta francês Pascal Bruckner, 53 anos, que
publicou recentemente o livro "A Euforia Perpétua" (Ed. Bertrand Brasil),
onde ele denuncia a fragilidade e a crueldade de uma sociedade que
transformou a felicidade em ideal coletivo e obrigatório.

"No mundo ocidental, quem não é feliz se sente excluído e fracassado".

"A felicidade é extremamente individual e efêmera por definição. Por isso,
as pessoas obcecadas em conquistá-la, como a uma propriedade, sofrem em
dobro e se distanciam das pequenas alegrias da vida".

ÉPOCA - Como a felicidade se tornou uma tirania?
Pascal Bruckner - No século XVIII, felicidade já deixara de ser um direito
para se tornar um dever. Mas essa inversão de valores só se consolidou no
século XX, depois de 1968, quando se fez uma revolução em nome do prazer, da
alegria, da voluptuosidade. A partir do momento em que o prazer se torna o
principal valor de uma sociedade, quem não o atinge vira um indivíduo
fora-da-lei.

ÉPOCA - Se é natural ao ser humano buscar a felicidade, onde está o erro?
Bruckner - O erro é esquecer que ninguém pode dizer o que o outro deve
procurar, muito menos coletivamente. É perigoso achar que a existência só
tem validade se a pessoa encontrar a felicidade. Essa é apenas uma das
possibilidades na vida. Há várias outras, como a paixão e a liberdade.
Recuso a noção de felicidade como objetivo maior da humanidade.

ÉPOCA - O problema não é o que se considera felicidade hoje?
Bruckner - O problema é a procura. Todos os que buscam a felicidade ficam
mais infelizes, porque não se trata de uma caça ao tesouro ou à pedra
filosofal. A busca da felicidade está fadada ao fracasso. É como procurar o
príncipe encantado. Acabamos por nos privar dos pequenos prazeres e das
pequenas alegrias, e ficamos com uma insatisfação permanente.


"A depressão é a doença de uma sociedade que decidiu ser feliz a todo preço.
Não se tolera mais a fragilidade. Tudo é visto sob o ângulo da patologia. Aí
temos de medicar a existência. É desumano".

"Produto Interno Bruto alto não é sinônimo de povo feliz. A França um dos
países mais ricos do mundo, é também onde se consome uma grande quantidade
de antidepressivos".


ÉPOCA - A felicidade transformada em objetivo coletivo é uma questão
política?
Bruckner - Muitos países querem se colocar como paraísos terrestres.
Enquanto isso, um monte de gente morre de fome. Todos os Estados fascistas
ou comunistas queriam padronizar a felicidade do povo. Isso é perigoso.
Nenhum governo, patrão ou chefe de Estado tem o direito de nos dizer onde
está nossa felicidade.

ÉPOCA - Confunde-se felicidade e bem-estar?
Bruckner - Dinheiro compra bem-estar, conforto, mas nada compra a
felicidade. Nos países em que o Estado falha em suprir as necessidades
básicas do cidadão, é compreensível que a felicidade seja vista como a
ausência da tristeza. Mas ela não deve ser reduzida a uma definição pela
negação. Nos países ricos, em que as pessoas dispõem de certa renda, têm
casa e comem normalmente, a felicidade não é compulsória. Prova disso é que
na França se consome uma enorme quantidade de antidepressivos.

ÉPOCA - Sofrimento virou doença?
Bruckner - Sempre detestamos o sofrimento, é normal. A novidade é que agora
as pessoas não têm mais o direito de sofrer. Então, sofre-se em dobro.
Querer que as pessoas se calem sobre a dor física ou psicológica é apenas
agravar o mal.

ÉPOCA - Felicidade virou símbolo de status?
Bruckner - Mais que o dinheiro, ela é a nova ostentação dos ricos. Eles
estão na mídia e exibem seus carros de luxo, sua vida amorosa
extraordinária, seu sucesso social, financeiro ou mesmo moral, quando
colaboram com instituições beneficentes. A felicidade virou parte da comédia
social.

ÉPOCA - Isso aumenta a crença de que ela pode ser conquistada?
Bruckner - Há pessoas que correm a vida inteira atrás dela, e então a
felicidade vira uma inquietação permanente. Ou seja, o sujeito já entrou no
território da angústia. A felicidade vira uma prisão.

"O Dalai-Lama deixou de lado a herança budista para se tornar acessível.
Vende muito e virou referência espiritual para celebridades. Em seus livros,
há bom senso, mas também um monte de besteira".

"No Oriente, a vida é uma seqüência de sofrimentos, ao passo que, no
Ocidente, ela virou uma sucessão de gozos, que as pessoas perseguem numa
saga quixotesca e patética. No fim, é igual".

ÉPOCA - E o papel da religião em tudo isso?
Bruckner - O cristianismo coloca a felicidade como o paraíso perdido ou por
vir. É a noção da felicidade perfeita, ao pé de Deus. Praticamente todas as
religiões falam do sofrimento e nos prometem a felicidade depois desta vida.
No catolicismo, o sofrimento é tamanho que o Deus sangra e agoniza. Por
outro lado, há cada vez mais religiões que se ocupam da felicidade na Terra,
como evangélicos, budistas e hinduístas, por exemplo. Na verdade, nos
tornamos todos crentes laicos: tentamos cumprir na Terra o ideal que o
cristianismo nos propõe para o céu. Queremos fazer nossa felicidade como os
penitentes de outros tempos se flagelavam. Nós nos penitenciamos nas
academias de ginástica, no esforço permanente para emagrecer, nos regimes,
na obrigação de ter orgasmo.

ÉPOCA - Então nossa busca de felicidade não nos aproxima do hedonismo nem
traz uma ruptura com certos valores religiosos?
Bruckner - Curiosamente, todas as revoluções feitas nesse sentido, inclusive
a Francesa, desembocam em um ideal ainda muito impregnado de religião. Nosso
hedonismo acaba nos mortificando. Agredimos nosso corpo para torná-lo
perfeito, musculoso, imortal. As salas de ginástica cada vez mais se parecem
com salas de tortura. Carregamos a Inquisição conosco, e ela é o espelho.
Continuamos no universo da mutilação, que é medieval.

ÉPOCA - Isso ocorre também no Oriente?
Bruckner - Para os povos orientais, existe a noção de reencarnação. Por um
lado, pode-se esperar que a próxima vida seja melhor. Por outro, é preciso
viver de forma a evitar as reencarnações e, assim, poder ir ao encontro da
alma imortal de Brahma ou Buda. No Ocidente moderno a vida se tornou uma
seqüência de gozos. E nossa busca frenética por essa verdade parece a saga
de Dom Quixote. É patética.

ÉPOCA - No século XIX, havia o 'mal do século'. Era lindo sofrer. Estamos
vivendo isso às avessas?
Bruckner - O 'mal do século' era uma estratégia do individualismo. O burguês
era contente e satisfeito, ao passo que o artista exibia sua tristeza para
se distinguir da massa. Até a doença se tornou uma forma de singularização.
Hoje, a estratégia é a mesma: se distinguir, escapar da miséria comum.

ÉPOCA - Por isso muita gente adota a atitude de ver alegria e perfeição em
cada refeição, cada objeto, cada momento?
Bruckner - É a estratégia dos estóicos, de fazer tudo como se fosse a última
vez. É uma revalorização da vida cotidiana. É interessante, mas pode ser um
mecanismo de autopersuasão, de se convencer da felicidade da própria
existência, de evitar ser pego no 'erro'. Essas são pessoas que decidiram
imperativamente ser felizes. Isso é muito suspeito, porque todo ser humano
tem momentos de tristeza. Tentar esconder isso é se enganar.

ÉPOCA - Os livros de auto-ajuda reforçam que só não é feliz quem não quer?
Bruckner - Esse tipo de literatura sempre existiu. São livros contra as
pequenas misérias do cotidiano: como se livrar de uma febre, remover uma
mancha. Hoje, no entanto, os temas são mais amplos: promete-se a felicidade.
Deepak Chopra, guru das estrelas de Hollywood, faz vários livros sobre o
mesmo tema: como ganhar dinheiro, como fazer sucesso. Há sempre um ou dois
conselhos que funcionam, mas esse tipo de receita vive muito próximo do
charlatanismo.

ÉPOCA - As pessoas felizes são menos interessantes?
Bruckner - Ninguém é feliz ou infeliz o tempo todo. A vida não se divide
entre essas duas polaridades. Muito mais importante que a felicidade é a
liberdade, a capacidade de enfrentar problemas. A felicidade é um valor
secundário, e é bom enfatizar isso para que não se sintam culpadas as
pessoas que não chegam a ser felizes.

ÉPOCA - O que seria a felicidade real, não-idealizada?
Bruckner - Um sentimento sem objeto preestabelecido, algo que muda de acordo
com a pessoa, com a época e com a idade. Nós a encontramos em alguns
momentos, mas ela é fugidia por natureza, não vem quando a chamamos e às
vezes chega quando menos esperamos. Há dois erros básicos na forma como a
encaramos atualmente. Um é não reconhecê-la quando acontece ou considerá-la
muito banal ou medíocre para acolhê-la. O segundo erro é o desejo de
retê-la, como a uma propriedade. Jacques Prévert tem uma frase linda sobre
isso: 'Reconheço a felicidade pelo barulho que ela faz ao partir'. A ilusão
contemporânea é a da dominação da felicidade. Um triste erro.